Há algo de profundamente errado em uma lua de mel no Egito. Pelo menos quando o casal é composto por uma herdeira fabulosamente rica e um homem que até ontem estava noivo da melhor amiga dela. Os travellings sobem a bordo do Karnak, o sol queima sobre as pirâmides, e todos ali têm um motivo — ou vários — para querer Linnet Ridgeway morta. O problema é que ninguém confessa. E, no meio do rio, longe de qualquer delegacia, um belga baixinho de bigodes impecáveis toma chá enquanto observa. O assassinato vem. Ele sabe.
Editora HarperCollins 
320 páginas
Sinopse:
A tranquilidade de um cruzeiro de luxo pelo Nilo chega ao fim quando o corpo de Linnet Doyle, uma bela e jovem milionária, é descoberto em sua cabine.
Porém, para azar do autor do crime, o brilhante detetive Hercule Poirot está a bordo. Ele logo descobre que cada passageiro é suspeito, pois todos tinham motivos para tirar a vida de Linnet. Em um rio de mentiras, Poirot precisa descobrir a verdade sobre esse estranho assassinato.
Das páginas para as telas, o mistério a bordo mais instigante da Rainha do Crime ganhou adaptação cinematográfica pela 20th Century Studios.
Morte no Nilo (1937) é um dos romances mais celebrados de Agatha Christie, e por boas razões. A trama coloca Hercule Poirot em férias no Egito — férias que, claro, são interrompidas por um homicídio a bordo de um barco de luxo. Linnet Doyle, recém-casada e herdeira de uma fortuna colossal, é encontrada morta a tiros em seu camarim. Ao lado, o marido Simon Doyle — seu próprio marido — está ferido na perna, aparentemente incapaz de ter cometido o crime. E a principal suspeita recai sobre Jacqueline de Bellefort, a ex-melhor amiga da vítima e ex-noiva de Simon, que os seguiu até o Egito em uma espiral de ciúmes e humilhação. Mas, como todo leitor de Christie já sabe, a primeira suspeita quase nunca é a certa.
O grande trunfo do livro está na manejo das dinâmicas de personagem. Christie constrói um mosaico de motivações que impressiona pela densidade: há a empregada que guarda rancor, o advogado interessado na herança, a romancista que escreve sobre crimes, o médico com dívidas de jogo, a velha aristocrata que não suporta a vulgaridade dos novos-ricos, o primo preterido. Cada um tem um segredo, cada um mente em algum momento, e cada mentira se desdobra em outra. O leitor fica tonto com tantos fios — e essa é a mágica. A autora maneja com maestria subplots que, em mãos menos habilidosas, se perderiam em meio ao nó central.

A ambientação no Egito também merece destaque. As descrições dos templos, do rio, das pedras de Abu Simbel criam um cenário grandioso e opressivo, onde o passado milenar contrasta com a futilidade dos turistas ricos. Christie usou sua própria experiência em viagens pelo Egito (nas quais acompanhou o segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan) para dar autenticidade aos detalhes. O resultado é que o Karnak se torna uma espécie de ilha isolada — o que, claro, é fundamental para a trama de “quarto fechado” flutuante.
Agora, os poréns. Morte no Nilo não é o melhor livro de Agatha Christie — esse título, para a maioria dos leitores, fica com E não sobrou nenhum ou Assassinato no Campo de Golfe. O que o coloca um degrau abaixo? Primeiro, a solução do crime, embora engenhosa, exige um pouco de ginástica lógica e uma coincidência que, reconheçamos, é um tanto forçada (a questão da arma e do lenço, para quem já leu, sabe do que falo). Segundo, alguns personagens secundários são menos desenvolvidos do que poderiam — a romancista Salome Otterbourne, por exemplo, é quase uma caricatura da “escritora bêbada”, e sua filha Rosalie tem potencial desperdiçado. Terceiro, e mais subjetivo, há um quê de incomodidade na forma como Jacqueline é tratada pela narrativa: sua dor é real, mas Poirot parece mais interessado em sua “inteligência” do que em sua tragédia.
Dito isso, é incontestável que Morte no Nilo está entre os melhores da autora. A tensão cresce com perfeição, as pistas são distribuídas de forma honesta (quem relê percebe os sinais desde o primeiro capítulo), e o final — ah, o final — ainda consegue arrancar um suspiro mesmo quando você já conhece a solução. Além disso, o livro tem a vantagem de apresentar um Poirot mais humanizado, menos caricato do que em outras aventuras. Ele não resolve tudo com arrogância; pelo contrário, parece cansado, reflexivo, quase melancólico diante da ferocidade que o amor pode alcançar.
Prepare-se para desconfiar de todo mundo, até do guia turístico. Prepare-se para anotar nomes em um guardanapo, tentar montar o quebra-cabeça antes do final — e falhar, como quase todos falham. E prepare-se, ao terminar, para entender por que Agatha Christie ainda reina absoluta no trono do mistério: porque ela sabia que um bom crime não se resolve apenas com lógica. Resolve-se com o coração podre que bate por baixo da lógica.


