Resenha de Uma Mulher no Limiar do Tempo, de Marge Piercy

-

Você já foi chamada de louca por insistir que o que sente é real? Já tentou explicar uma dor que não aparece em exame nenhum, uma injustiça que ninguém quer ver, uma fuga que só você enxerga? Connie Ramos está internada à força em um hospital psiquiátrico. Ela é pobre, é latina, é mulher. E o sistema já decidiu: ela não é confiável. Mas Connie tem um segredo — ou uma alucinação. Ela viaja para o futuro. Ou será que o futuro viaja até ela?


521 páginas

Sinopse:

Connie Ramos, uma mulher latina moradora de Nova York, havia perdido a filha e o marido, assim como a própria dignidade. E quando Luciente aparece em sua casa, ela começa a desconfiar que havia perdido também a sanidade. Afirmando ser um viajante do ano de 2137, Luciente a convida a conhecer o seu mundo, uma sociedade utópica de igualdade racial e de gênero, sustentabilidade ambiental e autorrealização sem precedentes. Contudo, Connie acaba testemunhando também uma outra realidade, em que a humanidade vive no subterrâneo e em que tudo possui um preço, inclusive as pessoas.

As possibilidades são antagônicas. Uma se tornará realidade e a outra cairá no esquecimento. A decisão está nas mãos de Connie.


Uma Mulher no Limiar do Tempo, de Marge Piercy, publicado em 1976, é um daqueles livros que recusam se acomodar em gêneros confortáveis. É ficção científica? É realismo psicológico? É um manifesto político? É tudo isso ao mesmo tempo — e exatamente essa ambiguidade é sua maior força. Acompanhamos Connie, uma mulher de origem porto-riquenha, moradora de uma Nova York em decadência, que foi vítima de abusos, perdeu a guarda da filha, foi usada em experimentos médicos e, agora, é mantida involuntariamente em uma instituição psiquiátrica. Em meio às sessões de eletrochoque e à indiferença dos médicos, ela começa a ter visões — ou visitas — de um futuro distante, uma comunidade chamada Mattapoisett, onde a sociedade se reorganizou após um colapso.

O livro nunca resolve o mistério para o leitor: Connie está realmente viajando no tempo (ou para uma dimensão paralela), ou seu cérebro, sobrecarregado pela dor e pela opressão, está criando um refúgio imaginário para sobreviver? Piercy mantém essa ambiguidade até o fim, e isso é proposital. A mensagem é clara: para uma mulher sistematicamente desacreditada, violentada institucionalmente, a diferença entre “realidade objetiva” e “alucinação necessária” é irrelevante. O que importa é que a fuga — seja ela mental ou literal — é a única forma de continuar existindo. E, de quebra, essa fuga oferece um projeto de mundo que vale a pena ser levado a sério.

E que projeto. O futuro de Mattapoisett apresentado por Piercy é fascinante e profundamente estranho para os padrões de hoje. Não é uma utopia perfeita — há guerras, há perdas, há violência em outras partes do mundo — mas dentro da comunidade, as relações humanas foram radicalmente transformadas. As crianças são criadas coletivamente, sem a noção de “pais” biológicos exclusivos. A reprodução é feita através de “bocas” artificiais, eliminando a gravidez como destino feminino. As pessoas não são divididas por gênero de forma hierárquica: homens e mulheres usam roupas semelhantes, cuidam igualmente de tarefas domésticas e de criação, e o trabalho é organizado em turnos rotativos para que ninguém se especialize em funções degradantes ou entediantes. O corpo, sem a pressão estética e sem a sexualidade como mercadoria, torna-se apenas mais uma característica, não um destino.

Uma mulher no limiar do tempo – Livraria da Minna

É uma visão poderosa, especialmente para a década de 1970, quando a segunda onda do feminismo começava a questionar a própria estrutura da família nuclear e da divisão sexual do trabalho. Piercy vai além do igualitarismo superficial: ela propõe uma refundação do que significa ser humano, descolando biologia de identidade e de função social. Mattapoisett é tentador e, ao mesmo tempo, assusta — porque exige que abramos mão de noções tão arraigadas que parecem naturais, mas não são.

Dito isso, o livro tem seus problemas. O ritmo é oscilante — há longos trechos em que a narrativa se arrasta, especialmente nas passagens que descrevem em detalhe as rotinas da comunidade ou as sessões de tortura psiquiátrica. Piercy parece, em alguns momentos, mais interessada em expor seu projeto sociológico do que em fazer a história avançar. Além disso, muitos personagens secundários são pouco desenvolvidos ficando no limite do funcional: servem para ilustrar uma ideia ou um ponto de vista, mas dificilmente despertam empatia genuína. Até mesmo Connie, por vezes, é mais símbolo da mulher oprimida do que uma pessoa complexa com contradições internas (embora ela tenha seus momentos de brilho — sua relação com a filha, por exemplo, é dolorosamente real).

Também é necessário mencionar que a visão de Piercy sobre o futuro, embora revolucionária para sua época, carrega algumas limitações. A sociedade de Mattapoisett é predominantemente branca e centrada em valores ocidentais de coletivismo racional. Questões de raça e etnia, tão centrais na opressão que Connie sofre no presente, são praticamente apagadas no futuro — uma escolha estranha, dado que Connie é latina e sua identidade étnica é parte fundamental de sua marginalização. Além disso, a abolição da família biológica, que para algumas leitoras pode soar libertadora, para outras pode parecer uma perda profunda. O livro não dialoga muito com essas ambiguidades.

Ainda assim, Uma Mulher no Limiar do Tempo permanece um texto essencial para quem se interessa por ficção científica feminista, por narrativas de resistência psíquica e por experimentos literários que recusam respostas fáceis. Ele nos força a perguntar: se uma mulher desacreditada por todos insiste que vê um mundo melhor, quem somos nós para duvidar? E se esse mundo melhor exigisse que reinventássemos tudo — gênero, família, trabalho, identidade —, teríamos coragem? Ou chamaríamos quem propõe de louca também?

Prepare-se para uma leitura que às vezes cansa, que se repete, que não te abraça nos momentos difíceis. Mas prepare-se também para sair dela com uma imagem na cabeça — a de uma mulher sozinha contra tudo, agarrando-se a uma visão que pode ser apenas sua, e transformando essa visão em combustível para não desistir. E isso, convenhamos, não é pouca coisa.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

Compartilhe

Posts Recentes

Mais postagens

Recent comments

Você já foi chamada de louca por insistir que o que sente é real? Já tentou explicar uma dor que não aparece em exame nenhum, uma injustiça que ninguém quer ver, uma fuga que só você enxerga? Connie Ramos está internada à força em...Resenha de Uma Mulher no Limiar do Tempo, de Marge Piercy