Resenha de Puta Livro Bom, de Jason Mott

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Você já escreveu uma carta para você mesmo do passado? Já tentou avisar aquela criança que ainda não sabia o que a esperava? Bem-vindo ao território desconfortável, genial e profundamente humano de Puta Livro Bom, de Jason Mott. E, sim, o título é esse mesmo. Provocativo, direto e meio desconexo. Exatamente como a vida.


Editora Record 
322 páginas

Sinopse:

Um autor dos Estados Unidos acaba de publicar seu primeiro livro, um tremendo sucesso, intitulado Puta livro bom. Durante a turnê de divulgação, em meio a entrevistas, aventuras amorosas e ressacas monumentais, ele conhece um garotinho de pele muito, muito preta que passa a segui-lo feito uma sombra. Esse Garoto reaparece ao longo de toda a viagem falando da própria vida e dos pais, além de um plano louco do pai e da mãe: ensiná-lo a ficar invisível para que se protegesse do destino que a cor da sua pele lhe reservava.

E é verdade que o escritor é o único capaz de vê-lo; mas, como ele tem uma condição médica que o impede de distinguir imaginação de realidade, o autor tem certeza de que o menino não passa de fruto da sua mente. Logo, entretanto, suas visões se tornam mais intensas, forçando-o a encarar um passado do qual sempre tentou escapar e uma verdade que busca a todo custo encontrar corpo e voz.


Jason Mott é conhecido do público brasileiro pelo best-seller O Regresso, que virou série na Netflix. Mas Puta Livro Bom — publicado originalmente como The Wonder of It All (ou algo assim? Não, o título em inglês é Hell of a Book, de 2021, vencedor do National Book Award) — é uma fera completamente diferente. É um livro que desafia qualquer resumo linear, porque sua estrutura é deliberadamente desobediente. Temos um narrador-personagem, um escritor negro de sucesso (que se chama… Jason Mott? Ou não?), que viaja pelos Estados Unidos fazendo divulgação de seu livro, também chamado Puta Livro Bom. Enquanto isso, ele é assombrado — no sentido literal e metafórico — por um menino negro chamado Kid, uma criança imaginária (ou será real?) que aparece em momentos cruciais, especialmente sempre que o narrador testemunha, direta ou indiretamente, atos de racismo. Kid usa uma capa de chuva amarela, anda descalço, tem óculos fundo de garrafa e um olhar que mistura inocência e cansaço. E ele não para de perguntar.

A metalinguagem aqui é o esqueleto do livro. O narrador está escrevendo um livro sobre escrever um livro enquanto vive as situações que o livro descreve. Em dado momento, não sabemos mais onde termina a “realidade” do narrador e onde começa a ficção que ele cria. Mas o truque mais poderoso de Mott é outro: Kid é, ao mesmo tempo, o narrador quando criança e todas as crianças negras que sofrem racismo por perto de forma imaginária. Ele é um fantasma que não morreu — ou que morre todo dia, silenciosamente, nos corredores das escolas, nas abordagens policiais, nas piadas de mau gosto repetidas por colegas. O narrador adulto tenta se conectar com Kid, conversar com ele, protegê-lo. Mas Kid some, reaparece, olha fixamente e pergunta coisas como: “Você já foi preto? Por que dói tanto?” ou “Você acha que eu vou morrer?”. O adulto, que já deveria ter todas as respostas, se vê calado, travado, frustrado.

Puta livro bom | Amazon.com.br

Aí entra a crise existencial que atravessa o livro de ponta a ponta: como se relacionar com temas pesados — racismo, violência policial, morte de crianças negras — sem cair no lugar comum, sem fazer do sofrimento espetáculo, sem se sentir um impostor? O narrador, que é negro e bem-sucedido, carrega uma culpa silenciosa por ter “escapado”. Ele mora em uma casa bonita, viaja de avião primeira classe, é aplaudido em eventos literários. Mas Kid está ali para lembrá-lo de que a negritude não é uma experiência monolítica. Ele pode ter escapado da violência direta, mas não escapou da memória, do medo, da sensação de que sua segurança é frágil e talvez imerecida. A todo momento, ele se pergunta: o que eu faço com isso? Escrevo mais um livro sério sobre racismo? Faço piada? Finjo que não vejo? Grito? Desisto?

E essa indagação deságua numa pergunta ainda mais profunda e incômoda, que Mott coloca na boca do narrador com uma honestidade desarmante: por que, por ser preto, eu preciso falar só de questões étnicas? Por que não posso escrever sobre amor, sobre espaço, sobre cachorros, sobre qualquer outra coisa sem que me perguntem “mas cadê a sua negritude no texto?”? O livro inteiro é um debate consigo mesmo sobre a armadilha da representação. Por um lado, o narrador sabe que sua visibilidade como autor negro é importante, que sua voz pode inspirar e denunciar. Por outro, ele sente o peso de ter que carregar a “causa” em cada frase, de ser reduzido a uma identidade, de não poder simplesmente existir como escritor sem ser também “o escritor negro”. Ele quer ser lido pelo que escreve, não por quem é. Mas ao mesmo tempo, sabe que quem ele é molda o que escreve — e que ignorar isso seria covardia.

É desse embate que nasce o humor ácido do livro. Porque, sim, Puta Livro Bom é muito engraçado — um humor seco, autodepreciativo, que desarma momentos de tensão máxima com uma piada ou uma observação absurda. O narrador conversa com sua editora branca que quer que ele escreva “um livro mais alegre” enquanto notícias de mais um menino negro morto pela polícia pipocam na TV. Ele tenta escrever uma cena de amor e é interrompido por Kid perguntando se ele já foi algemado. Ele lê comentários de leitores brancos dizendo que o livro é “universal” e não “apenas sobre racismo”, e não sabe se comemora ou se ofende. A graça vem justamente do incômodo, do desconforto, da sensação de que não há resposta certa — e que talvez a graça seja a única forma de não enlouquecer.

Puta Livro Bom' é de fato obra brilhante sobre vida negra - 27/01/2024 -  Ilustrada - Folha
Jason Mott

O final do livro (sem spoilers) é uma espécie de anti-clímax que funciona perfeitamente. Não há grande solução, não há catarse completa. O que há é um acordo silencioso entre o narrador e Kid: você cresceu, eu continuo aqui. Você pode não me salvar, mas ao menos não me esquece. E, talvez, ao escrever este livro caótico, sincero, mal-humorado e bonito, Jason Mott tenha encontrado sua própria forma de responder à pergunta que nunca cessa: o que um escritor negro deve fazer com sua voz? Ele deve usá-la só para a dor? Não. Ele pode usá-la também para rir, para confundir, para abraçar o que não faz sentido. Esse é o “puta livro bom” do título — um livro que se recusa a ser só uma coisa, só um gênero, só uma mensagem. É bagunçado, é contraditório, é vivo. Como a própria experiência de tentar existir quando o mundo insiste em te definir antes de te conhecer.

Prepare-se para rir e se sentir culpado por rir. Prepare-se para se ver refletido no narrador mesmo se você não for negro — porque a crise de não saber como agir diante da injustiça é universal. Prepare-se, acima de tudo, para terminar o livro e querer ligar para alguém, ou escrever uma carta, ou apenas sentar em silêncio por um bom tempo. E, quem sabe, também escrever um “puta livro bom” sobre sua própria vida bagunçada.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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