Resenha de Salmo para um Robô Peregrino, de Becky Chambers

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Em algum momento, em algum lugar entre uma xícara de chá e uma conversa sobre o propósito da existência, este livro te abraça sem pedir licença.


Editora Morro Branco 
176 páginas 

Sinopse:

Em Salmo para um robô peregrino, o primeiro livro da nova série Monge e o Robô, Becky Chambers, vencedora do Prêmio Hugo, apresenta uma visão otimista para um mundo cada vez mais distópico Passaram-se séculos desde que os robôs de Panga ganharam autoconsciência e abandonaram as fábricas; séculos desde que peregrinaram para a vastidão selvagem e nunca mais foram vistos; séculos desde que desvaneceram em mitos e lendas urbanas. Um dia, a vida de Dex, um monge de chá com sentimentos de incompletude e insatisfação, é perturbada pela repentina chegada de um robô que veio para honrar uma velha promessa de checar como os humanos estão. Esse robô não pode voltar até que uma questão essencial seja respondida: “De que os humanos precisam?” Mas a resposta para essa pergunta depende muito de quem pergunta, e como. Assim, dois aliados improváveis partem em uma jornada filosófica sobre propósito, anseios e pertencimento. Em um mundo onde as pessoas têm tudo de que precisam, será que ter mais importa?


Salmo para um Robô Peregrino é uma novela curta que não tem pressa nenhuma de chegar em algum lugar — e isso é exatamente o ponto. Becky Chambers constrói um mundo onde os robôs, em algum momento do passado, simplesmente decidiram parar de trabalhar para humanos e foram viver por conta própria nas regiões selvagens. Desde então, tornaram-se tabu, mito, memória coletiva. Até que um deles resolve aparecer.

Dex é um monge errante não binário que prepara chás e ouve os problemas das pessoas, e que chegou num ponto da vida em que nada mais parece suficiente. A busca por algo que não consegue nomear os leva para fora dos caminhos conhecidos — e é lá que encontra Mosscap, um robô curioso, gentil e absolutamente fascinado com a ideia de entender o que os humanos precisam. O encontro entre os dois é o livro inteiro. E é o suficiente.

Chambers é uma escritora que transformou a interação cultural e o choque de vivências em especialidade própria, e aqui isso aparece na sua forma mais delicada. A diferença entre Dex e Mosscap não é apenas espécie ou origem — é forma de existir, de processar o tempo, de entender o que significa ter propósito. O robô que nunca precisou se perguntar o que quer contempla com genuína curiosidade um ser que não consegue parar de se perguntar isso. A conversa que emerge daí tem mais filosofia do que parece e mais leveza do que filosofia normalmente permite.

O livro não tem antagonista, não tem conflito externo, não tem urgência dramática. Tem dois seres tentando se entender num mundo que parou de ser hostil para aprender a simplesmente existir. Para quem está acostumado com ficção científica de ritmo acelerado, pode soar como pouco. Para quem está no momento certo para receber este livro, vai soar como exatamente o que faltava.

Salmo para um robô peregrino: 1 : Chambers, Becky, Fernandes, Fábio, Ruan,  Feifei: Amazon.com.br: Livros

Becky Chambers não resolve as grandes perguntas que levanta sobre propósito, suficiência e o que significa uma vida bem vivida. Ela as senta à mesa, serve um chá, e deixa que fiquem por ali. É uma escolha honesta que combina perfeitamente com o que o livro é: não uma resposta, mas uma companhia.

Salmo para um Robô Peregrino é literatura de cuidado. O tipo que você lê quando o mundo está barulhento demais e você precisa de algo que trate sua existência com gentileza. Um abraço quente no frio, como deve ser.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttps://coadorcultural.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritore de seis livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciade em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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