Resenha de A vida e as mortes de Severino Olho de Dende, de Ian Fraser

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Severino já morreu algumas vezes. Mas isso não o impede de continuar falando — e, principalmente, de continuar tocando. Num futuro distante onde o Nordeste e o Norte brasileiros viraram potências interestelares, o forró, o maracatu e a umidade da floresta encontraram seu caminho entre as estrelas. Bem-vindo à space opera mais brasileira e mais desbocada que você vai ler na vida.


Editora Intrínseca
304 páginas

Sinopse:

Numa galáxia muito, muito distante, mais especificamente no planeta Cabula XI, onde os dias duram noventa e seis horas e o ano é 2577, vive um humano de nome Severino Olho de Dendê. No passado, um encontro com a morte lhe tirou quase tudo e levou parte de seu coração. Agora, ao lado do melhor amigo, Bonfim, um alienígena malandro e falastrão, ele trabalha como investigador particular e se entrega à boemia nas horas vagas.

Só que Severino não é um investigador comum: no lugar do olho esquerdo, ele tem o Olho de Dendê, um artefato tecnológico extremamente avançado que lhe permite ver os últimos momentos de uma pessoa logo antes de morrer.

Quando a história começa, Severino e Bonfim são chamados para investigar um assassinato suspeito que parece esconder motivações escusas da Federação Setentrional, organização poderosa que governa a galáxia, e dos Carcarás Carmesins, inspetores a serviço da instituição.

Deixemos a dupla de investigadores e viajemos para o planeta Batoidea, onde a capivara geneticamente modificada Antonieta Capitolina Macabéa, uma dedicada Carcará, encontra na cena de um crime, escrito com sangue, um nome que conhece muito bem.


A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê, de Ian Fraser, é um livro que transpira identidade. A trama acompanha Severino, um músico misterioso (e meio vagabundo) que parece sempre ressurgir depois de morrer em circunstâncias absurdas. Ao seu redor, uma trupe de personagens tão excêntricos quanto ele — cientistas malucos, líderes religiosos espaciais, mercenários com sotaque puxado e IAs que aprendem a dançar quadrilha. O cenário é uma galáxia onde a colonização espacial foi feita não por americanos ou europeus, mas por nordestinos e nortistas que levaram para as estrelas o cheiro de dendê, a sanfona e uma desconfiança saudável de qualquer autoridade.

O grande trunfo do livro é o regionalismo. Fraser não apenas “coloca” elementos nordestinos como enfeite — ele constrói uma sociedade espacial inteira a partir dessas referências. A tecnologia é adaptada às realidades locais, os conflitos políticos ecoam disputas terrenas, e a música não é trilha sonora, mas motor narrativo. As canções têm poder real no universo do livro: elas curam, matam, abrem portais, invocam entidades. É uma space opera que respira, sua e dança. O humor é constante, afiado e muitas vezes escatológico — há piadas de tirar o fôlego e outras que fazem rir de vergonha alheia. O texto é fluido, gostoso de ler, e a vontade de saber o que Severino vai aprontar (e como vai morrer) move as páginas com facilidade.

A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê
A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê e suas capas

O desenvolvimento dos personagens é outro ponto alto. Severino é o protagonista carismático por excelência — desleixado, talentoso, inconsequente, mas com lampejos de profundidade que surgem nos momentos mais inesperados. Os secundários, especialmente a cientista e a guerreira que o acompanham, ganham camadas ao longo da trama. Fraser se preocupa em dar a cada um uma voz distinta, desejos e contradições. Não há personagem descartável, e isso é raro em space operas que normalmente priorizam o espetáculo em detrimento da interioridade.

Agora, o calcanhar de aquiles. O livro peca nos efeitos e consequências narrativas. As mortes de Severino — que o título anuncia no plural — acontecem, sim, mas raramente geram o peso emocional que deveriam. O leitor dificilmente se apega ao destino dos personagens no sentido mais visceral. A impressão é que tudo pode ser revertido, que a morte é um contratempo cômico e não uma perda real. Isso tira a tensão de boa parte da trama. Quando um personagem está em perigo, você não sente o frio na espinha — sente curiosidade sobre como ele vai escapar, mas não medo de que realmente morra. As consequências dos atos, sejam eles violentos ou heroicos, são frequentemente abafadas pelo ritmo acelerado e pelo humor dominante. Falta o “peso” que faria o leitor sair do livro com um nó na garganta ou uma reflexão duradoura.

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Isso dito, é justamente o desenvolvimento de personagem que compensa essa ausência. Porque você se importa com eles por quem são, não pelo que sofrem. E isso não é pouca coisa. Severino, mesmo sem uma morte que arranque lágrimas, é um personagem que fica na cabeça. Você quer saber onde ele vai tocar depois, quem ele vai irritar, que música estranha vai inventar. O humor e o carisma seguram a narrativa onde o peso dramático falha.

No final das contas, A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê é um livro que merece ser lido pelo puro prazer da originalidade. Não é uma space opera para quem busca tragicidade ou dilemas existenciais profundos. É uma space opera para quem quer ver o Brasil — o Brasil real, o Brasil da esquina, do boteco, do forró pé-de-serra — conquistar as estrelas sem perder o sotaque. E, nesse quesito, Fraser acerta em cheio.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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