Amal El-Mohtar e Max Gladstone constroem em É Assim que se Perde a Guerra do Tempo uma história de amor epistolar que transcende eras, realidades e lealdades. Publicado em 2019, o romance acompanha Vermelha e Azul, duas agentes de facções opostas em uma guerra temporal, que começam a trocar cartas provocativas através do tempo e espaço, desenvolvendo uma conexão que desafia tudo pelo qual lutam.
Editora Suma 
192 páginas
Sinopse:
Entre as cinzas de um mundo em ruínas, uma soldada encontra uma carta que diz: Queime antes de ler .
E assim tem início uma correspondência improvável entre duas agentes de facções rivais travando uma guerra através do tempo e espaço para assegurar o melhor futuro para seus respectivos times. E então, o que começa como uma provocação se transforma em algo mais. Um romance épico que põe em jogo o passado e o futuro.
Se elas forem descobertas, o destino será a morte. Ainda há uma guerra sendo travada, afinal. E alguém precisa vencer.
O formato epistolar é executado com maestria. As cartas entre as protagonistas começam como provocações entre inimigas – mensagens deixadas em anéis de árvores, escritas em vapor, codificadas em sementes. Cada correspondência é mais criativa que a anterior, mostrando não apenas o crescente afeto entre elas, mas também a engenhosidade necessária para se comunicar quando você existe em linhas temporais que se reescrevem constantemente. Os autores alternam capítulos, dando voz única a cada personagem, criando um dueto literário que funciona perfeitamente.
A prosa é luxuosa, quase poética em sua densidade. El-Mohtar e Gladstone não economizam em metáforas elaboradas e jogos de palavras que transformam cada carta em uma pequena obra de arte. Frases como “Eu te vejo em cada sombra que o sol não alcança” permeiam o texto, criando uma atmosfera onírica que combina com a natureza fluida da realidade que as personagens habitam.
O ritmo flui como uma dança – momentos de ação frenética quando as agentes executam suas missões são intercalados com as pausas íntimas das cartas. Essa alternância mantém o leitor engajado, sempre ansioso pela próxima correspondência, pela próxima confissão velada, pela próxima demonstração de vulnerabilidade entre duas mulheres que deveriam ser inimigas mortais.
No entanto, é justamente na construção do mundo que o livro tropeça. As facções – a tecnológica Agência e o orgânico Jardim – são apresentadas em pinceladas impressionistas. Sabemos que estão em guerra através do tempo, reescrevendo a história para garantir futuros específicos, mas os detalhes permanecem frustradamente vagos. Como exatamente funciona essa guerra? Quais são os objetivos específicos de cada lado? Por que essas duas agentes em particular são tão importantes?
Os autores optaram deliberadamente por manter o foco no romance, deixando a ficção científica como pano de fundo nebuloso. Vemos Vermelha e Azul em missões que vão da Atlântida ao fim do universo, mas esses cenários espetaculares servem apenas como palco para suas emoções, nunca sendo explorados em profundidade. Para leitores que buscam worldbuilding robusto e explicações detalhadas sobre viagem temporal, a experiência pode ser frustrante.

A relação entre as protagonistas, porém, compensa essas lacunas. O desenvolvimento do romance é orgânico e envolvente – de adversárias respeitosas a confidentes, de confidentes a algo muito mais profundo. Cada carta revela camadas de solidão, de cansaço com uma guerra infinita, de desejo por conexão genuína em existências que se estendem por milênios.
É Assim que se Perde a Guerra do Tempo é um livro que prioriza emoção sobre explicação, poesia sobre prosa técnica. É uma carta de amor ao próprio ato de escrever cartas, uma celebração da palavra escrita como forma de conexão humana.
Para quem busca romance queer com roupagem de ficção científica, é uma obra inesquecível. Para quem quer entender as mecânicas da guerra temporal, pode sair com fome de respostas. Mas talvez, como as próprias protagonistas descobrem, algumas coisas importam mais que vitórias em guerras que ninguém mais lembra por que começaram.


