Resenha de Indígenas de Férias, de Thomas King

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Existem livros que parecem não ter pressa nenhuma de contar nada e, ainda assim, você não consegue soltar as páginas. Indígenas de Férias é um desses raros casos: acompanhamos dias comuns de um casal em viagem pela Europa, sem grandes reviravoltas, e mesmo assim cada capítulo carrega um peso emocional que só cresce.


Editora Dublinense
320 páginas

Sinopse:

Mimi e Bird são um casal indígena: ela Blackfoot, ele Cherokee. Os dois viajam pela Europa seguindo a rota dos cartões-postais enviados por Leroy Bull Shield, tio de Mimi, depois dele ter sido retirado de sua reserva indígena para se tornar atração em um show de faroeste. Ao partir, Leroy havia levado a bolsa Crow, um importante artefato da família, e é com o argumento de recuperá-la e descobrir o paradeiro do antepassado que Mimi e Bird justificam suas andanças pelo mundo. Uma aventura tão insólita quanto profunda, em que íntimo e político se encontram, e que nos faz pensar não apenas sobre o envelhecimento, o companheirismo e o amor, mas também sobre a violência física e simbólica cometida contra indígenas e refugiados.


A história segue Bird e Mimi, um casal indígena canadense já de idade avançada, que decide viajar pela Europa em busca de pistas sobre o tio de Mimi, desaparecido décadas atrás junto com um artefato sagrado de família. O pretexto da viagem, porém, é quase um detalhe. O verdadeiro coração do livro está no ócio, nas conversas soltas entre os dois enquanto visitam pontos turísticos, comem mal em restaurantes badalados e se perdem em cidades que parecem sempre um pouco iguais demais. Thomas King usa esse cotidiano desacelerado para ir revelando, aos poucos, quem são Bird e Mimi de verdade, e o que carregam.

O choque cultural aqui é construído com muita inteligência. Não é o clichê do estrangeiro perdido admirando pontes e catedrais. É o desconforto de ser lido como exótico em um continente que historicamente exotizou povos indígenas, é o cansaço de repetir de onde vêm, é o peso de estar de férias em um mundo que segue produzindo crises enquanto turistas tiram fotos. Uma passagem em uma estação de trem em Budapeste, com refugiados amontoados ao fundo enquanto o casal segue seu roteiro turístico, resume bem esse contraste incômodo que o livro não tem medo de expor.

Indígenas de Férias, de Thomas King

Bird, o narrador, é onde a coisa fica mais interessante. Ele convive com traumas antigos que Mimi, com humor e carinho, batizou como se fossem personagens à parte, dando nome e corpo para autodesprezo, melancolia e ego. É uma forma engenhosa de tratar saúde mental sem transformar isso em drama pesado o tempo todo, o livro consegue ser genuinamente engraçado mesmo carregando esse fardo. As rusgas entre o casal, cansados um do outro depois de tantos anos juntos, mas ainda profundamente ligados, dão um tom de intimidade real, do tipo que só existe entre quem já brigou e fez as pazes centenas de vezes.

Indígenas de Férias não tenta resolver nada, e talvez esteja aí sua maior virtude. Ele entende que existência indígena não precisa de tragédia constante para ser válida, ela pode caber também no tédio de um museu lotado, na leveza de um copo de vinho errado, no silêncio confortável de quem já não precisa performar felicidade. Fica a pergunta: quantas vezes confundimos calma com falta de profundidade?

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttps://coadorcultural.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritore de seis livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciade em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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