Tem livro nacional que prova, sem precisar gritar isso, que a gente também sabe fazer realismo mágico tão denso quanto os grandes nomes latino-americanos que sempre citamos como referência. O Dono e o Mal é exatamente esse tipo de livro, um romance brasileiro que carrega toda aquela melancolia típica do gênero, misturando o fantástico com uma dor histórica que é muito real.
Editora Alfaguara 
336 páginas
Sinopse:
Tentando apagar o passado, Batista conhece Soledade da Silva Farias, com quem se casa, na esperança de um recomeço. Mas a mulher carrega suas próprias feridas e opressões, das quais tampouco consegue escapar. Conquistar uma vida digna, para eles, é uma impossibilidade. Seus três filhos tomam caminhos tortuosos, mas o pior é Graciliano, que segue o legado de selvageria do pai. Ele se envolve com o mundo do crime e arrasta o inferno para dentro da própria família, que busca uma vida tranquila na pequena Brejo do Livramento, cidade paraibana dominada pela produção de cachaça e pela poderosa família Lucena Neumann.
Essa não é uma história tradicional nem previsível. Os Farias de Assumpção são acossados pela figura grotesca e anárquica conhecida pela alcunha de O Inglês, que gradativamente os empurra para um vórtice de loucura. O Dono e o Mal é um romance multifacetado, de diálogos afiados e situações absurdas, que se impõem sobre uma família que avança sem atalhos pelo caminho da destruição.
A trama acompanha a família Farias de Assumpção, se espalhando por duas gerações inteiras de gente marcada pela violência, na pequena Brejo do Livramento, cidade paraibana dominada pela produção de cachaça e pelo poder quase absoluto da família Lucena Neumann. Bruno Ribeiro constrói essa saga familiar em cima dos efeitos da luta de classes, da ditadura, dos abusos vindos do próprio governo e da homofobia, mostrando como esses traumas não ficam parados numa única pessoa, eles se espalham, mutam e passam adiante como uma herança que ninguém pediu pra receber.
Os filhos dessa família tentam caminhos diferentes pra escapar da miséria que os cerca, alguns pelo estudo, outros pelo crime, e o pior deles, Graciliano, acaba seguindo o legado de selvageria do próprio pai, arrastando o resto da família pra dentro do mesmo inferno. É nesse ponto que o livro acerta em cheio ao mostrar como a fuga de si mesmo é, no fim das contas, impossível, você pode mudar de cidade, de profissão, de vida inteira, mas o trauma segue te encontrando de um jeito ou de outro.
E há ainda a figura grotesca e anárquica conhecida como O Inglês, que empurra gradativamente essa família pra dentro de um vórtice de loucura, funcionando quase como personificação dos efeitos do colonizador na mente do colonizado. Bruno Ribeiro usa a fantasia não como fuga da realidade, mas como ferramenta pra escancarar feridas históricas que o realismo puro talvez não desse conta de expor com tanta força.
O começo do livro pode ser uma barreira real pra quem não é leitor assíduo, as introspecções são bem eruditas e exigem um fôlego inicial que nem todo mundo tem paciência de sustentar. Mas quem passa por essa fase inicial encontra uma verdadeira novela familiar, no melhor sentido do termo, do tipo que instiga leitura voraz e te prende pelas próximas páginas sem dar chance de largar.
Não dá pra terminar essa leitura sem pensar em Cem Anos de Solidão, guardadas as devidas proporções e o contexto genuinamente brasileiro que Bruno Ribeiro constrói com identidade própria. Fica então a pergunta que o livro deixa pairando, quanto do que herdamos da nossa família é realmente nosso, e quanto é só trauma repetindo o próprio ciclo através de nós?


