Alguns clássicos da ficção científica usam o espaço pra fugir da Terra, e outros usam o espaço pra te trazer de volta pra dentro de você mesmo de um jeito que dói. Solaris é do segundo tipo, um livro que carrega uma melancolia que lembra muito a literatura escandinava, aquela falta de esperança arrastada, a dificuldade genuína de enxergar qualquer saída boa pra situação.
Editora Aleph 
320 páginas
Sinopse:
Solaris é um planeta distante, aparentemente coberto por um vasto mar de gel. Acreditando que esse oceano inusitado é um ser vivo com o qual podem se comunicar, cientistas vindos da Terra constroem ali uma base de pesquisa.
Quando o psicólogo Kris Kelvin chega à Estação Solaris para participar dos estudos em curso, percebe que algo estranho está acontecendo com seus colegas: eles estão agressivos e apavorados. Kelvin passa a investigar a situação, mas a busca por respostas acaba colocando a sua própria percepção em risco.
Publicado pela primeira vez em 1961, este clássico da ficção científica – nesta edição traduzido diretamente do polonês – ganhou três adaptações cinematográficas, uma das quais vencedora do Grand Prix no Festival de Cannes, em 1972.
A história acompanha o psicólogo Kris Kelvin, enviado a uma estação espacial que orbita o planeta Solaris, coberto quase inteiramente por um oceano que parece ter consciência própria. Ao chegar lá, ele encontra a tripulação em estado de colapso mental, e logo entende o motivo. O oceano de Solaris tem a capacidade de materializar, com precisão perturbadora, pessoas ligadas às memórias mais profundas e traumáticas de quem está na estação. Não são fantasmas nem alucinações, são corpos reais, que sentem, respiram e interagem como se sempre tivessem existido.
É aqui que Stanislaw Lem constrói o verdadeiro coração do livro, por um bom tempo Solaris se transforma num estudo denso sobre o que aconteceria se seus traumas e sentimentos mais enterrados ganhassem corpo na sua frente, exigindo que você lidasse com eles cara a cara, sem conseguir fugir ou racionalizar a distância. Kelvin precisa encarar uma versão física de algo do seu passado que ele preferiria ter deixado enterrado, e assistir esse processo é desconfortável do jeito certo, do tipo que te faz questionar como você reagiria na mesma situação.
A ficção científica aqui funciona quase como pretexto. O verdadeiro interesse de Lem nunca foi explicar cientificamente o oceano consciente de Solaris, e sim usar esse mistério incompreensível como espelho pra natureza humana, pra nossa incapacidade histórica de lidar com o que não conseguimos controlar ou entender completamente. Há uma crítica silenciosa ali sobre a arrogância científica de achar que consegue catalogar e dominar tudo, inclusive emoções que nem os próprios personagens sabem nomear direito.

Onde o livro perde um pouco do fôlego é justamente na reta final, depois de tanta densidade psicológica bem construída, o desfecho não sustenta com a mesma força a tensão que vinha sendo criada, deixando uma sensação de que faltou um último empurrão pra fechar tudo com o mesmo impacto do meio da história.
Ainda assim, Solaris segue sendo essencial, um livro que entende que o verdadeiro desconhecido não está no espaço, está dentro de cada um de nós. Se seus traumas ganhassem corpo agora, na sua frente, você teria coragem de olhar pra eles de verdade?


