Resenha de Galápagos, de Kurt Vonnegut

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Kurt Vonnegut nos presenteia em 1985 com uma das suas sátiras mais peculiares, onde a humanidade evolui para algo completamente inesperado após um apocalipse econômico global.


Editora Aleph Livro: Galápagos - Kurt Vonnegut | Estante Virtual
299 páginas

Sinopse:

Um milhão de anos atrás, em 1986, o Bahía de Darwin — o Cruzeiro Ambiental do Século — está pronto para zarpar do porto de Guayaquil. A lista de convidados está cheia de celebridades e pessoas influentes da mídia, mas quando uma crise financeira global se instaura, quase todos os passageiros decidem ficar em casa. Os que persistem e tentam a sorte em um Equador falido e perigoso, não fazem ideia de que estão prestes a se tornar sobreviventes presos nas Ilhas Galápagos e os progenitores de uma nova espécie humana: corajosa e totalmente diferente. Kurt Vonnegut Jr. surpreende mais uma vez com o seu humor ácido e sombrio, em um vislumbre crítico sobre tudo o que é trágico e decadente na humanidade.


Em Galápagos, somos guiados por Leon Trout, filho do escritor de ficção científica Kilgore Trout, que narra a história como um fantasma preso há um milhão de anos em um cruzeiro que nunca chegou ao seu destino. Sim, é tão inusitado quanto parece, e Vonnegut abraça essa premissa absurda com seu humor característico.

A escolha de um narrador fantasma é genial em sua estranheza. Leon observa do além enquanto um grupo improvável de passageiros fica ilhado nas Ilhas Galápagos, tornando-se os únicos ancestrais da humanidade futura. Ele pode pular no tempo, comentar sobre o futuro distante e fazer piadas sobre estar morto – tudo com a naturalidade de quem está contando fofocas em um bar. É Vonnegut em sua forma mais irreverente.

Os personagens presos nesse cruzeiro acidental para o fim do mundo são um show à parte. Temos uma professora de ciências, um vigarista, uma viúva rica, indígenas canibais e até mesmo uma celebridade japonesa. Vonnegut não poupa ninguém – cada um recebe sua dose de sarcasmo e crítica ácida. As pretensões humanas, a ganância, a vaidade, tudo é dissecado com o bisturi afiado do humor negro do autor.

O que torna o livro especialmente divertido é como Vonnegut culpa nossos “grandes cérebros” por todos os problemas da humanidade. Guerra nuclear? Culpa dos grandes cérebros. Crise econômica global? Grandes cérebros novamente. A solução evolutiva que ele propõe – humanos evoluindo para criaturas aquáticas com cérebros minúsculos – é ao mesmo tempo hilária e perturbadoramente lógica dentro da narrativa.

O ritmo sofre algumas travadas quando Leon pula demais entre passado, presente e futuro. Às vezes perdemos o fio da meada entre uma viagem temporal e outra, especialmente quando ele para no meio de uma cena tensa para nos contar como aquele personagem vai morrer daqui a vinte anos. É o estilo Vonnegut levado ao extremo – alguns vão achar genial, outros irritante. Mas quando funciona, e na maior parte do tempo funciona, cria uma sensação vertiginosa de inevitabilidade cômica.

A crítica social é afiada como sempre. Vonnegut ridiculariza o capitalismo, o militarismo, a obsessão tecnológica e principalmente nossa arrogância como espécie. O colapso econômico que desencadeia os eventos do livro é descrito com uma precisão satírica que soa assustadoramente atual – países inteiros falindo como empresas, pessoas morrendo de fome enquanto números em computadores dizem que não há dinheiro.

Galapagos Kurt Vonnegut First Edition Signed

Darwin aparece como figura constante, não o Darwin real, mas a ideia de seleção natural levada ao absurdo. As Galápagos, onde Darwin desenvolveu sua teoria da evolução, tornam-se o palco para a “devolução” humana. É Vonnegut brincando com a ciência, a religião e a filosofia ao mesmo tempo, sem levar nada muito a sério.

Os momentos mais hilários vêm das observações casuais de Leon sobre o futuro. Ele menciona com naturalidade que daqui a um milhão de anos os humanos serão basicamente focas inteligentes que se alimentam de peixe cru, e isso é apresentado como uma melhoria. Afinal, focas não começam guerras nucleares nem inventam derivativos financeiros.

Galápagos é ficção científica que não se leva a sério, mas que faz observações sérias disfarçadas de piada. Vonnegut consegue ser profundamente pessimista sobre a natureza humana enquanto nos faz rir do absurdo de tudo. É um livro que nos lembra que talvez nosso maior problema seja nos acharmos importantes demais, inteligentes demais, especiais demais.

Para quem já conhece Vonnegut, é mais uma pérola em seu colar de obras misantrópicas e hilariantes. Para novatos, pode ser um pouco desconcertante, mas vale a viagem. Afinal, quantos livros você conhece onde a salvação da humanidade está em ficar mais burra e peluda? É Vonnegut no seu melhor – cruel, engraçado e estranhamente esperançoso, mesmo que a esperança seja virarmos mamíferos marinhos sem polegares opositores.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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