Resenha de O Negro visto por ele mesmo, de Beatriz Nascimento

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E é exatamente deste incômodo, desta ausência e desta urgência que trata O Negro Visto por Ele Mesmo, a coletânea que reúne a obra da intelectual e ativista Beatriz Nascimento. Prepare-se: não é um livro para ler com passividade. É um livro para ser absorvido, questionado e, acima de tudo, vivido.


Editora Ubu O Negro Visto Por Ele Mesmo
256 páginas

Sinopse:

Nesta coletânea cuidadosamente organizada pelo professor da Universidade Federal de Goiás Alex Ratts, o leitor encontrará textos críticos, entrevistas e a prosa poética de Beatriz Nascimento – intelectual e ativista negra que marcou o universo artístico-cultural da diáspora africana e a história do movimento negro no cenário nacional. Neles, Beatriz tece sérias reflexões que oferecem uma imagem prismática não só da experiência íntima das pessoas negras na universidade e na cena cultural brasileira como também das representações midiáticas e historiográficas que lhes são devolvidas dia após dia por uma sociedade racista e em negação quanto ao próprio racismo. Como existir em um contexto em que a própria existência – passada, presente e futura – é cotidianamente negada? Em que consiste o esforço para estabelecer a própria imagem, reivindicar o próprio imaginário? São essas algumas das perguntas implícitas em O negro visto por ele mesmo, registro precioso sobre o que é ser negro, e se perceber negro, no Brasil.


Publicada postumamente pela Ubu Editora em 2022, com organização cuidadosa do antropólogo Alex Ratts, a obra reúne ensaios acadêmicos, entrevistas e textos em prosa produzidos por Beatriz ao longo de sua trajetória — parte significativa deles entre as décadas de 1970 e 1980, período de efervescência dos movimentos negros no Brasil, inclusive durante a ditadura militar . Não se trata de um livro convencional, com começo, meio e fim amarrados. É uma colagem de vozes, uma constelação de ideias que orbitam em torno de algumas perguntas fundamentais: Como existir quando sua própria existência é negada? O que significa reivindicar a própria imagem num mundo que insiste em devolver apenas estereótipos?

A estrutura fragmentada — dividida entre ensaios mais densos, entrevistas de tom quase confessional e uma prosa poética que arrepia — pode desorientar num primeiro momento. Mas logo se percebe que a forma escolhida é parte do conteúdo. Beatriz não quer falar para a academia nos moldes dela; quer falar a partir de si, do corpo negro que habita a universidade, a rua, o terreiro, o quilombo. E o que emerge dessa leitura é um pensamento prismático, que atravessa história, sociologia, crítica cultural e militância sem perder a ternura — nem a potência .

Um dos eixos centrais do livro é a crítica contundente às representações do negro na mídia e na historiografia oficial. Beatriz denuncia como o cinema, a televisão e a literatura sempre fixaram a imagem negra no passado escravista, no corpo subalterno, na figura doméstica ou na hipersexualização. “A representação que se faz de nós na literatura, por exemplo, é a de criado doméstico, ou, em relação à mulher, a de concubina no período colonial”, escreve ela, em um de seus ensaios . Mas não para na denúncia: propõe que o audiovisual pode ser um “elemento manipulador de opiniões” também para a transformação, capaz de mexer com o imaginário social e modificar comportamentos. É uma percepção quase profética — décadas antes da explosão de debates sobre representatividade, ela já apontava que a briga por imagens dignas era central para a luta antirracista.

Nesse percurso, Beatriz analisa filmes como Compasso de espera (1973), Xica da Silva (1976) e Quilombo (1984), além do seriado Sítio do Picapau Amarelo e da produção estadunidense Raízes. Com olhar de historiadora e de mulher negra, ela critica quando a obra reduz o personagem negro a estereótipo ou o apresenta como “atípico” para ser aceito — mas também celebra quando há potência e complexidade . É uma crítica que não se contenta com o elogio fácil nem com a condenação vazia: quer é que o negro seja visto por ele mesmo, em sua inteireza.

Outro pilar fundamental do pensamento de Beatriz é a noção de quilombo. Mais do que um território físico do passado, ela o ressignifica como espaço simbólico de resistência e organização política. “A terra é meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Onde eu estou, eu sou”, afirma, numa das passagens mais célebres do livro . Para ela, quilombo pode ser um lugar onde as pessoas vivam mais livremente — quatro ou cinco negros reunidos também formam um quilombo, basta um negro estar com outro ou consigo mesmo . É uma ideia que transcende o passado e se projeta no presente e no futuro: o aquilombamento como estratégia de sobrevivência, afeto e produção de sentido num mundo que insiste em desumanizar.

Essa perspectiva se conecta com o que ela chama de “paz quilombola” — um estado de equilíbrio e consciência coletiva que o povo negro constrói em seus espaços seguros, longe da violência do colonizador . Não se trata de isolamento, mas de autodeterminação: poder existir sem depender do olhar branco para validar sua humanidade. É nesse contexto que Beatriz defende a importância da memória, da oralidade, dos mais velhos, do samba de quintal, da gira, do jongo — tudo aquilo que rememora valores ancestrais e mantém viva uma forma negra de estar no mundo .

O pensamento-quilombo de Beatriz Nascimento | Outras PalavrasA experiência pessoal de Beatriz também atravessa o livro de forma comovente. Nos textos mais intimistas, ela fala sobre o desencaixe no ambiente acadêmico, as violências simbólicas que enfrentou como mulher negra intelectual, a solidão de ocupar espaços onde quase ninguém se parecia com ela. Mas também fala de encontro, de descoberta, de amor. Em sua prosa poética, a dor e a beleza andam juntas — e quem lê sai transformado .

Infelizmente, a trajetória de Beatriz Nascimento foi interrompida de forma brutal em 1995, aos 52 anos, quando foi morta pelo companheiro de uma amiga que sofria violência doméstica. Sua partida precoce silenciou uma das vozes mais originais do pensamento negro brasileiro, mas não apagou seu legado. Nos últimos anos, ela vem sendo redescoberta e celebrada: recebeu o título de doutora honoris causa pela UFRJ em 2021 e, em 2022, tornou-se a primeira mulher negra a receber a mesma honraria pela UFF .

O Negro Visto por Ele Mesmo é, portanto, um livro essencial — não apenas para entender o Brasil, mas para ajudar a construí-lo diferente. Beatriz nos ensina que a luta por representação não é superficial: é a briga pelo direito de existir em todas as dimensões — na arte, na política, na universidade, na memória. E, acima de tudo, nos lembra que o pensamento negro não é complemento ou nicho: é produção de conhecimento legítima, necessária e urgentemente atual.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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