Resenha de O Poder da Espada, de Joe Abercrombie

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Logen Nove Dedos é um homem que tenta fugir de si mesmo. O problema é que ele carrega o próprio passado como uma sombra armada — e essa sombra tem dentes. Bem-vindo ao mundo de O Poder da Espada, onde heróis não existem, a magia está morrendo e o preço de um golpe bem dado nunca vem sozinho.


Editora Aleph
736 páginas

Sinopse:

Confrontos eclodem por toda parte: forças inimigas se enfrentam ao norte e ao sul, e um bárbaro, um inquisidor e um espadachim estarão no centro dos conflitos para decidir o futuro da nação. Afinal, guerras são uma excelente oportunidade para alcançar aquilo que mais se deseja.

Logen Nove Dedos é um homem marcado por batalhas, mas precisa se afastar urgentemente da fama de bárbaro irreprimível se não quiser que a próxima luta seja a sua última. Sand dan Glokta hoje é um inquisidor escuso, depois de deixar para trás a carreira como coronel e passar por uma tortura inimaginável. E Jezal dan Luthar, que vem de uma família rica, é um espadachim fracassado que confia nas aparências para subir na hierarquia do exército. A chegada do grande mestre Bayaz vai deixar a vida desses três indivíduos muito mais complicada.

Volume que dá início a uma das séries mais envolventes da fantasia contemporânea, O poder da espada é passagem incontornável para todos os fãs do gênero — e também para aqueles que desejam se aventurar em mundos épicos pela primeira vez.


O Poder da Espada (The Blade Itself, 2006) é o primeiro volume da trilogia A Primeira Lei, de Joe Abercrombie, e funciona como um prenúncio poderoso de tudo o que virá. A trama apresenta três fios narrativos aparentemente desconectados: Logen, tentando sobreviver em um mundo hostil; Inquisidor Glokta, um ex-guerreiro torturado que virou torturador, investigando conspirações na capital; e Jezal dan Luthar, um aristocrata arrogante e esgrimista talentoso que só se importa com honrarias. Aos poucos, esses caminhos vão se cruzando em direção a um objetivo comum, guiados pelo enigmático mago Bayaz — que não é bem o sábio bondoso que os clichês da fantasia nos acostumaram.

O conceito de magia é curioso. Abercrombie parte de uma base tolkeana — magia como força ancestral, poderosa e em decadência — mas a trata com a mecânica de um RPG de mesa. Bayaz conjura, sim, mas cada feitiço custa algo, e a magia é cada vez mais rara em um mundo que se inclina para a pólvora e a razão. É como se a fantasia estivesse envelhecendo, perdendo o brilho, e os personagens soubessem disso. Isso dá ao livro uma camada de melancolia que contrasta com a violência crua que o acompanha.

Diego Guerra | Resenhas | O Poder Da Espada

E que violência. Abercrombie trata o sangue como personagem — está lá, é visceral, não se desculpa. As cenas de luta são coreografadas com precisão cinematográfica, cortesia da experiência do autor como editor de filmes. Mas o que impressiona é a ambiguidade com que a violência é tratada. Em alguns momentos, ela é a única resposta (Logen sobrevivendo a inimigos mortais); em outros, é questionada, ridicularizada ou mostrada como falha (Jezal perdendo uma linda luta porque sua arrogância não treinou sua resistência). Não há glamour. O livro diz: sim, a espada resolve, mas também fere quem a empunha, e nem sempre resolve do jeito que você quer.

Os personagens são o maior trunfo. Logen é um matador com código de honra próprio, que se pergunta se pode ser bom apesar do que fez. Glokta é repulsivo, cruel, autodepreciativo e, contra todas as expectativas, cativante. Jezal é insuportável no começo, mas Abercrombie planta as sementes de sua (possível) transformação. Todos são únicos, todos são ambíguos, e ninguém merece totalmente sua torcida — mas você torce assim mesmo.

O Poder da Espada, de Joe Abercrombie | A Primeira Lei | Livro um |  Inexorável Nerd

O ponto fraco é que O Poder da Espada é claramente um prenúncio. Um eterno “Vem aí”. A trama principal mal engata no primeiro livro; há muito caminhar, muita introdução, e o clímax é mais um “até já” do que um desfecho. Quem busca uma história fechada vai se frustrar. Mas quem encara como promessa de grandes aventuras vindouras — com batalhas épicas, traições e dilemas morais — encontrará solo fértil.

Prepare-se para conhecer personagens que vão te irritar e te conquistar. Prepare-se para ler cenas de tortura com um nó no estômago e rir de uma piada ácida na página seguinte. E prepare-se para, ao terminar, correr atrás do volume dois — porque a espada só foi desembainhada.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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