Toda saga épica chega a um ponto em que precisa decidir se vai se reinventar ou repetir a fórmula que deu certo, e Filhos de Duna escolhe um caminho meio termo que nem sempre convence. É o terceiro volume da saga, trazendo uma nova geração Atreides prestes a lidar com o peso de um império construído sobre profecia, sangue e fanatismo religioso.
Editora Aleph 
529 páginas
Sinopse:
O Imperium vive um interregno após Paul Atreides abdicar de seu título de imperador e entregar-se ao deserto. Sua irmã, Alia, ascende ao poder como regente enquanto os filhos de Muad Dib não são capazes de assumir o Trono do Leão. Herdeiros não só do poder político e econômico de seu pai, os gêmeos também carregam em suas veias toda a carga genética manipulada por séculos pela Irmandade Bene Gesserit. Mas a hegemonia dos Atreides está ameaçada.
De seu exílio em Salusa Secundus, os membros da despojada Casa Corrino tramam uma complexa teia para retomar as rédeas do Imperium e se vingar de todos os envolvidos em sua queda. Filhos de Duna fecha com brilhantismo o arco de história iniciado com Paul Atreides no épico Duna e em sua sequência, Messias de Duna, retomando os temas políticos e existenciais com a mesma maestria dos livros que o precederam.
O livro apresenta Leto II e Ghanima, filhos gêmeos de Paul Atreides, o Muad’ib, nascidos já com acesso a memórias genéticas de incontáveis ancestrais, uma habilidade que os torna adultos dentro de corpos infantis. Enquanto isso, o domínio estabelecido pelo pai deles enfrenta ameaças crescentes, entre inimigos externos de olho no trono e conspirações internas que colocam em xeque a própria regência de Alia, irmã de Paul, que governa em nome dos sobrinhos ainda crianças. Frank Herbert usa esse cenário para expandir ainda mais as discussões sobre poder, religião e as consequências de transformar um homem em mito vivo.
O tom profético que Herbert dá às crianças continua interessante, principalmente pela ironia de ver personagens tão jovens carregando sabedoria milenar e tendo que lidar com adultos que os subestimam por causa da aparência. É um recurso narrativo que funciona, ainda que comece a se repetir de forma cansativa conforme o livro avança, quase como se o autor confiasse demais no impacto do contraste entre infância e onisciência sem trazer muito mais desenvolvimento além disso.
Onde o livro decepciona é justamente na forma como trata o mistério em torno de Paul. Depois de dois livros construindo essa figura messiânica cheia de camadas, a resolução aqui soa apressada e superficial, quase como se Herbert estivesse mais preocupado em tirar Paul do caminho para abrir espaço pros filhos do que em dar um fechamento à altura de tudo que foi plantado antes. Fica um gosto de descarte, não de conclusão.

A transformação de Alia também incomoda pelo mesmo motivo, ela acontece de forma repentina e pouco justificada no momento em que ocorre, fazendo com que boa parte do restante do livro precise trabalhar retroativamente para explicar por que ela mudou daquele jeito. É uma escolha narrativa que inverte a ordem que deveria fazer mais sentido, primeiro construir a motivação, depois a consequência, e isso deixa a personagem com menos força do que ela merecia ter.
No fim, Filhos de Duna talvez seja o mais fraco dos três primeiros livros da saga, não por falta de ideias interessantes, mas por não conseguir amarrar bem os temas que levanta nem sustentar a urgência que os dois primeiros volumes construíram com tanto cuidado.


