Uma cidade subterrânea, um assassinato, um detetive humano e um robô parceiro que pode ser mais humano que muita gente. Se isso soa familiar, é porque essa ideia andou por muitos lugares depois daqui.
Editora Aleph 
304 páginas
Sinopse:
A população da Terra cresceu de modo desenfreado. Os Mundos Siderais, antigas colônias terráqueas, há muito deixaram de se sujeitar à autoridade de seus colonizadores. Para agravar a situação, os robôs parecem estar substituindo grande parte da mão de obra humana, condenando os cidadãos da Terra a uma vida que mal lhes garante a subsistência.
Em meio a esse cenário, o embaixador dos Mundos Siderais é encontrado morto em sua residência na cidade de Nova York. O investigador de polícia Elijah Baley é escalado para investigar o crime, e para cooperar com o inquérito, os Siderais enviam um parceiro inusitado: seu nome é R. Daneel Olivaw, e ele é um robô.
Cavernas de Aço acompanha Elijah Baley, um detetive que precisa investigar o assassinato de um Espacial — humano de outros planetas, tratado quase como semideus pela sociedade terrestre. Para piorar sua situação, ele recebe como parceiro R. Daneel Olivaw, um robô tão humanamente construído que a maioria das pessoas não consegue distingui-lo de um ser humano. A missão já seria complicada. A companhia torna tudo ainda mais incômoda para Baley, e é exatamente nessa fricção que o livro encontra o que tem de melhor.
Asimov usa o formato noir com competência. Tem a cidade opressiva e claustrofóbica, tem o detetive relutante, tem as suspeitas que mudam de direção toda hora. Mas diferente de um Blade Runner, por exemplo — com quem a comparação é inevitável —, a densidade aqui é menor. A cidade subterrânea é uma premissa interessante mas que fica aquém do seu potencial, servindo mais de pano de fundo do que de elemento ativo na narrativa. Falta aquela camada de atmosfera que transforma um cenário em personagem.
O que salva e sustenta o livro é a pergunta central: o que define ser humano? Daneel não sente, não sofre, segue leis programadas — e ainda assim, em vários momentos, demonstra mais equilíbrio, empatia funcional e coerência do que Baley. Asimov não responde a pergunta, o que é a decisão certa. Ele a deixa suspensa e desconfortável, que é exatamente onde ela deve ficar.
Baley, por sua vez, é um protagonista peculiar: erra muito. Segue pistas erradas, tira conclusões precipitadas, constrói teorias que desmontam sozinhas. Chega na resposta não por brilhantismo dedutivo, mas por insistência e questionamento constante. É uma escolha honesta e que o torna mais humano do que o gênero costuma permitir, mas que em alguns momentos testa a paciência de quem lê.

O problema mais evidente do livro está nas personagens femininas, ou melhor, na ausência delas. As mulheres aqui são rasas, subdesenvolvidas, existem em função dos homens ao redor. Para um livro que se propõe a questionar o que é ser humano, é uma contradição difícil de ignorar.
Cavernas de Aço é um Asimov interessante, com uma premissa que influenciou muito do que veio depois no gênero. Mas não é o Asimov mais completo, mais denso ou mais surpreendente. Vale a leitura, especialmente para quem quer entender a construção do universo dos robôs. Só não espere o panteão.


