Resenha de Mar da Tranquilidade, de Emily St. John Mandel

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Uma floresta no Canadá. Uma anomalia que não deveria existir. E um fio invisível conectando pessoas separadas por séculos que jamais saberiam que se cruzaram.


Editora Intrínseca  Resenha de Mar da Tranquilidade, de Emily St. John Mandel
256 páginas

Sinopse:

Edwin St. Andrew tem 18 anos quando cruza o Atlântico em um navio a vapor, em 1912, exilado por sua família após uma discussão acalorada. Ele se embrenha na floresta, fascinado pela beleza da natureza selvagem canadense, e ouve as notas de um violino ecoando em um terminal de dirigíveis ―experiência que o deixa profundamente perturbado.

Dois séculos depois, Olive Llewellyn, uma escritora famosa, sai em turnê para divulgar seus livros. Ela está viajando por toda a Terra, mas seu lar é a segunda colônia lunar, um lugar feito de pedras brancas, torres pontiagudas e beleza artificial. No romance pandêmico mais vendido de Olive, há uma passagem estranha: um homem toca seu violino para ganhar uns trocados no corredor de um terminal de dirigíveis enquanto as árvores de uma floresta se erguem ao seu redor.

Quando Gaspery-Jacques Roberts, um detetive na Cidade Noite ― onde o céu é perpetuamente escuro ― é contratado para investigar uma anomalia nas florestas da América do Norte, ele descobre uma série de vidas desestruturadas: o filho exilado de um conde levado à loucura, uma escritora presa em casa enquanto uma pandemia devasta a Terra e uma amiga de infância da Cidade Noite que, como o próprio Gaspery, vislumbrou a chance de fazer algo extraordinário que irá bagunçar a linha do tempo do universo.


Mar da Tranquilidade é um livro construído em pequenos encontros. Mandel não trabalha com grandes arcos dramáticos ou personagens que carregam o peso do enredo nas costas. Ela trabalha com fragmentos — pedaços de vidas, momentos específicos, presenças breves que deixam rastros maiores do que pareciam enquanto aconteciam. O formato é leve, quase delicado, e a leitura flui com uma facilidade que engana: parece simples até que você percebe que todas as pontas estão sendo puxadas ao mesmo tempo.

E o final amarra tudo. Esse é um dos maiores méritos do livro: Mandel não deve favores. Cada personagem aparentemente aleatório, cada encontro que parecia tangencial, cada linha do tempo que parecia desconectada — tudo encontra seu lugar sem forçar e sem aquele ar de truque de mágica que irrita quando é evidente demais. É um trabalho de construção narrativa competente e satisfatório de acompanhar.

As questões temporais são o brinquedo favorito da autora aqui. O livro salta entre épocas com naturalidade, sem o peso expositivo que esse tipo de estrutura geralmente exige. Mandel parece confiar no leitor, o que é sempre bem-vindo.

Livro 'Mar da Tranquilidade' é reflexivo, mas esquemático - 21/02/2025 -  Ilustrada - Folha
Emily St. John Mandel

O ponto onde o livro fica aquém do que poderia ser está justamente nas camadas. A premissa tem profundidade suficiente para um mergulho mais fundo em questões sobre simulação, livre-arbítrio, o peso das escolhas através do tempo. Mas Mandel opta pela leveza, e isso é uma escolha válida que, ainda assim, deixa uma sensação de que havia mais território a explorar. O livro termina satisfatório mas não revelador. Agradável mas não inesquecível.

Mar da Tranquilidade é o tipo de leitura que combina com uma tarde tranquila e um café que esfria enquanto você vira páginas. Emily St. John Mandel sabe fazer literatura que respeita seu tempo sem exigir demais do leitor. Às vezes é exatamente isso que você precisa. Às vezes você vai querer um pouco mais.

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttps://coadorcultural.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritore de seis livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciade em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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