Tem livro que precisa de centenas de páginas pra dizer pouco, e tem livro curto que consegue te sacudir inteiro em poucas dezenas. Necropolítica é do segundo tipo. Achille Mbembe escreve direto ao ponto, sem rodeios acadêmicos desnecessários, e ainda assim entrega um dos conceitos mais urgentes pra entender como a política contemporânea lida com corpos, principalmente os corpos que o poder decidiu que não importam tanto.
Editora N-1 Edições 
76 páginas
Sinopse:
Neste ensaio, propus que as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror. Tentei demonstrar que a noção de biopoder é insuficiente para dar conta das formas contemporâneas de submissão da vida ao poder da morte. Além disso, propus a noção de necropolítica e de necropoder para dar conta das várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “mundos de morte”, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. Sublinhei igualmente algumas das topografias recalcadas de crueldade (plantation e colônia, em particular) e sugeri que o necropoder embaralha as fronteiras entre resistência e suicídio, sacrifício e redenção, mártir e liberdade .» ― Achille Mbembe
Antes de falar do livro, vale entender quem é o homem por trás dele. Achille Mbembe nasceu nos Camarões em 1957 e construiu carreira como historiador, cientista político e um dos pensadores mais influentes da atualidade sobre colonialismo, escravidão e negritude. Hoje leciona no Instituto Witwatersrand, em Joanesburgo, na África do Sul, e também na Duke University, nos Estados Unidos. É um intelectual que transita entre o Sul Global e as academias ocidentais sem nunca abandonar o lugar de fala que carrega, e isso se sente na escrita, que consegue ser teórica sem soar distante da realidade que descreve.
O conceito de necropolítica nasce em diálogo direto com Michel Foucault, mas vai além dele. Foucault cunhou o termo biopoder pra explicar como o Estado moderno passou a controlar a vida das populações, decidindo como elas vivem, se reproduzem e se comportam. Mbembe pega esse raciocínio e pergunta o que acontece quando esse mesmo poder, em vez de gerir a vida, passa a gerir a morte. Necropolítica é justamente isso: o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, transformando o deixar morrer em algo aceitável, desde que aconteça com os corpos certos.

E aqui está o ponto que mais incomoda no livro, porque Mbembe não fala disso como teoria abstrata. Ele passa pelo sistema de plantation, pela lógica colonial, por Ruanda e pela Palestina ocupada, mostrando que a morte em massa raramente é caótica, ela costuma ser organizada, burocrática, silenciosa. A imagem do homem-bomba também aparece como símbolo extremo dessa lógica, o corpo que se torna arma justamente porque já foi esvaziado de valor pelo sistema que o cerca.
É impossível terminar Necropolítica sem encarar a política de um jeito mais desconfortável. O livro deixa claro que exercer poder, na prática, muitas vezes significa decidir quais vidas merecem proteção e quais podem ser descartadas em nome de uma suposta ordem. Não é um texto pra ler tranquilo, e talvez seja exatamente por isso que continua tão citado, tão necessário, mais de duas décadas depois de escrito.
No fim, fica a pergunta que Mbembe nos obriga a fazer, mesmo sem querer respondê-la em voz alta: quantas mortes você já naturalizou hoje sem perceber que estava fazendo exatamente isso?


