Resenha de Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz?, de Kim Choyeop

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A ficção científica sul-coreana chega ao Brasil pela Editora Aleph trazendo um frescor que o gênero andava precisando, e Kim Choyeop entrega isso com a sensibilidade e a delicadeza que já são marca registrada da literatura coreana contemporânea. São sete contos que conversam entre si sem perder a identidade própria, misturando rigor científico com um olhar humano que nunca deixa a tecnologia falar mais alto que o sentimento.


Editora Aleph
236 páginas

Sinopse:

Em um futuro onde a tecnologia redefine as fronteiras da biologia e do espaço, o que acontece com aqueles que ficam para trás? Com a precisão e sensibilidade, Kim Choyeop reúne sete contos que investigam a solidão, o luto e a busca por conexão em um universo vasto. De uma cientista que espera décadas por uma viagem impossível a mundos onde a memória é colecionável, esta coletânea explora como o progresso técnico muitas vezes ignora a fragilidade humana e as minorias.

Se não podemos viajar à velocidade da luz é uma jornada sobre as fissuras do cotidiano e a beleza das conexões improváveis. Com uma escrita sensível e inventiva, a autora mostra por que é um dos principais nomes da ficção científica contemporânea. Leitura indispensável para quem busca, na imensidão das estrelas, um pouco mais de compreensão sobre o outro.


O conto que dá nome à antologia é, sem dúvida, o ponto alto do livro. Ele começa de um jeito e termina de outra forma completamente diferente, te pegando de surpresa sem parecer forçado. Trabalha saudade, a escolha (ou obrigação) de priorizar a vida profissional em detrimento da pessoal, os efeitos da troca constante de tecnologia sobre quem fica pra trás, e a falta de cuidado e sensibilidade que grandes corporações e governos têm com indivíduos pequenos diante de decisões que afetam vidas inteiras. É daqueles contos que ficam ecoando depois que você fecha o livro.

Espectro vem logo em seguida como um respiro necessário depois de um final tão impactante, e talvez por isso mesmo seja o conto de escrita mais esquecível da coletânea. Ainda assim, ele cumpre bem seu papel ao trazer uma camada nova pra discussão sobre arte como linguagem, um tema que poderia render mais se tivesse um pouco mais de fôlego.

Hipótese da Simbiose é onde Kim Choyeop mostra sua formação científica com mais clareza. A premissa é original e ousada, propondo um novo conceito de vida alienígena que, hipoteticamente, redefiniria a própria raça humana. O problema é que o desenvolvimento deixa aquela sensação incômoda de que a ideia merecia um conto maior, ou até um livro inteiro, pra explorar tudo o que ela sugere.

Por Que os Peregrinos Não Retornam? é o mais aventuresco de todos, com uma pegada que lembra bastante aqueles livros young adult que fizeram sucesso a década passada. Funciona como uma pausa mais leve e dinâmica no meio da antologia, mesmo sem ter a mesma profundidade emocional dos outros contos.

Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz?, de Kim Choyeop

Emoção Material traz uma das premissas mais provocativas do livro: nossa relação de posse com objetos e a necessidade humana de controlar quando e como sentir certas emoções. Kim Choyeop usa isso pra questionar por que a humanidade parece clamar tanto por emoções negativas no dia a dia, o que inevitavelmente leva a pensar sobre consumo excessivo de notícias, redes sociais e toda a ansiedade que isso gera. É um conto que conversa direto com quem está lendo, sem parecer didático.

Achados e Perdidos é o mais ambíguo e angustiante da coletânea, tratando de memória e identificação com uma singeleza que rende um impacto emocional forte apesar da simplicidade da premissa. E Minha Heroína Espacial fecha o livro redefinindo o que significa deixar um legado, trabalhando ancestralidade e identificação de forma bem definida, com um plot twist que amarra tudo com competência.

Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz? confirma Kim Choyeop como um nome a se acompanhar de perto na ficção científica mundial, não pelo espetáculo tecnológico, mas por insistir em perguntar o que sobra de humano quando o progresso segue em frente sem esperar ninguém. Qual desses futuros incomodou mais você, o que aconteceu ou o que ainda pode acontecer?

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttps://coadorcultural.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritore de seis livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciade em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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